Bem-aventurada Ana Catarina Emmerich
Em redor da cruz reinava o silêncio; todos se tinham afastado, muitos fugiram para a cidade.
O Salvador, naquele infinito martírio, mergulhado no mais profundo abandono, dirigia-se ao Pai celestial, rezava pelos inimigos, impelido pelo amor. Rezava, como durante toda a Paixão, recitando versos de salmos que nele se cumpriam. Vi figuras de anjos ao redor dele.
Quando, porém, a escuridão cresceu e o terror pesava sobre todas as consciências e todo o povo estava em sombrio silêncio, ficou Jesus abandonado de todos e privado de toda a consolação. Sofria tudo quanto sofre um pobre homem, aflito e esmagado pelo absoluto abandono, sem consolação divina ou humana, quando a fé, a esperança e a caridade, privadas de iluminação e consolo, de visível assistência, ficam sozinhas no deserto da provação, vivendo de si mesmas, num infinito martírio. Tal sofrimento não se pode exprimir.
Nessa tortura moral, Jesus nos alcançou a força de resistir na extrema miséria do abandono, quando se rompem todos os laços e relações com a existência e a vida terrena, com o mundo e a natureza em que vivemos, quando se desfazem também as perspectivas que esta vida em si nos abre para outra existência; nessa provação venceremos se unirmos nosso abandono com os merecimentos do abandono de Jesus na cruz.
Não há mais para o cristão nem deserto, nem solidão, nem abandono, nem desespero na hora da morte, no último combate; pois o Salvador, a luz, o caminho e a verdade, também andou por esse caminho tenebroso, derramando bênçãos e vencendo todos os terrores, e erigiu sua cruz também nesse deserto.
Jesus, inteiramente desamparado e abandonado, ofereceu-se a si mesmo por nós, fez até do abandono um riquíssimo tesouro: pois se ofereceu, com toda a sua vida, seus trabalhos, amor e sofrimento, e a dolorosa experiência de nossa ingratidão, ao Pai celestial, por nossa fraqueza e pobreza. Fez testamento diante de Deus e ofereceu todos os seus merecimentos à Igreja e aos pecadores. Pensou em todos; naquele abandono estava com todos, até o fim dos séculos.
Ele sentiu o sofrimento do abandono com mais amargura do que um homem comum, porque estava intimamente unido à Divindade, porque era verdadeiro Deus e verdadeiro homem e, no sentimento da humanidade abandonada por Deus, bebeu, como Deus-Homem, até o fundo, o cálice do abandono completo.
E testemunhou por um grito a dor do abandono, dando assim a todos os aflitos que reconheceram a Deus por Pai a liberdade de uma queixa cheia de confiança filial. Pelas três horas, Jesus exclamou em alta voz: "Eli, Eli, lama Sabachtani!", que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
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